Luiz Zerbini defende a Gávea e o Rio

Uma Carta Aberta Sobre o Sentido da Sustentabilidade

Quando palavras como “sustentabilidade” deixam de representar seus significados originais para legitimar justamente o seu contrário, já não servem aos seus propósitos. Servem apenas ao poder.

Sustentável é a palavra da moda. Quem não é, finge ser com enorme naturalidade. Foi assim com a ecologia anos atrás. Hoje, basta acrescentar “eco” ou “sustentável” ao nome de qualquer empreendimento — Eco Vila, Eco Resort, Parque Sustentável — e pronto: num passe de mágica, a ganância ganha um verniz de responsabilidade ambiental. Você deixa de ser apenas um empreendedor imobiliário e passa a ser um urbanista apaixonado pela natureza.

Outro dia descobri um dado curioso: dependendo do tecido, uma ecobag (sacolas reutilizáveis que foram criadas para resolver o problema do excesso de plástico e microplásticos na natureza) pode demorar mais para desaparecer do planeta do que uma sacola plástica.


O que significa construir de forma sustentável?


É um desvio que se repete. Recentemente, uma edição da revista Veja Rio com o título “Preservar compensa” na capa, exaltando “o concreto da sustentabilidade”, chamou minha atenção. Para minha surpresa, a reportagem apresentava o projeto de um condomínio chamado Opy Ubá, justamente no imenso recorte remanescente de Mata Atlântica que existe atrás da rua onde moro, na Gávea.

Em 2025, fui eleito Carioca do Ano pela mesma Veja. Sou artista visual e imagino que tenha sido escolhido por deixar transparecer em minhas pinturas o amor que sinto pela cidade do Rio de Janeiro e por sua natureza. Fiquei imensamente feliz com esse reconhecimento. Por isso, sinto-me quase na obrigação de defender essa floresta que faz parte das encostas do Parque Nacional da Tijuca. Há questões legislativas que já correm no Ministério Público, mas não entrarei nesse mérito que pertence a outro campo. O que me inquieta é a semântica: o que estamos chamando de sustentabilidade?

Conversando com meus vizinhos, descobri que a AMAGÁVEA (Associação dos Amigos da Gávea) nasceu nos anos 1970 justamente para enfrentar os grandes empreendimentos imobiliários que pretendiam subir a Rua Marquês de São Vicente. Uma de suas fundadoras, Eliane Velloso, já falecida, morava na mesma pequena rua sem saída onde moro hoje. Essa floresta resiste graças às vitórias conquistadas pela associação, pelos moradores, pela mobilização da sociedade civil e pela imprensa. Foi uma escolha da cidade.


A ação dos ecoespeculadores.


Agora, a Gávea está novamente sob ataque. Há um padrão que se repete e que não acontece só aqui, mas ecoa em toda cidade. Enquanto a legalidade é discutida na Justiça, árvores são derrubadas. Depois vêm as ações, os embargos, os recursos. Mas aquilo que levou décadas para crescer já tombou. A linguagem mudou e o marketing ficou sofisticado, mas a lógica continua a mesma.

Os novos ecoespeculadores querem derrubar árvores ignorando o status climático global, a vontade dos cidadãos e driblando a legislação. Prometem compensações ambientais como o plantio de mudas, sabe-se lá onde.

Mas uma muda substitui uma figueira centenária? É aceitável o corte de uma árvore de trinta metros que faz parte da paisagem, da memória da infância de tanta gente, que produz sombra, oxigênio e abriga pássaros? Para quem se interessa apenas pelo espaço que ela ocupa, o argumento é puramente burocrático: “ela não é nativa, veio da Índia ou da África, pode ser derrubada”.

Crescimento a qualquer preço não é sustentável.

Esses construtores, arquitetos e políticos não estão sentindo o calor? Desconhecem as consequências das crises climáticas? Nada disso parece importar diante de um cenário em que a cidade tem que crescer a qualquer preço — um crescimento que não está associado ao bem-estar da população.

Os mais velhos certamente se lembram das passeatas contra o “Monstro da Veplan”, o esqueleto de concreto abandonado em meio à natureza na Gávea. Pois é. O monstro voltou. Só que agora ele se diz sustentável e está escondido sob uma capa verde, desmatando tudo.


Luiz Zerbini
Artista Visual

O que significa sustentabilidade no Rio?

Na última semana, a AMAGÁVEA protocolou uma nova representação junto ao Ministério Público sobre o processo de licenciamento do empreendimento Oppy Ubá. O documento amplia questionamentos apresentados desde 2024 e recoloca no centro do debate uma pergunta que interessa a toda a cidade: afinal, o que significa construir de forma sustentável?

Tecnologia construtiva, eficiência energética e madeira engenheirada representam avanços importantes. Mas, sozinhas, essas soluções respondem à perda de árvores adultas, ao impacto sobre o microclima e à fauna urbana? Ou preservar um ecossistema existente não deveria ser o primeiro critério de sustentabilidade?

Segundo a AMAGÁVEA, com base em dados oficiais, mais de 400 árvores foram removidas na Gávea na última década, em um processo associado a empreendimentos recentes, obras particulares e novos projetos imobiliários, como Parque Sustentável, Condomínio Pindorama e GAVÍ.

A discussão também envolve os impactos sobre a fauna urbana, como aves, micos, quatis e outros animais que dependem desses fragmentos verdes para alimentação, abrigo e deslocamento.

Quando sustentabilidade e preservação não significam a mesma coisa

No município do Rio, a compensação ambiental é uma medida mitigadora exigida de quem modifica o meio ambiente. Ela busca compensar impactos, mas não significa, necessariamente, a preservação integral do ecossistema afetado.

Para a AMAGÁVEA, esse conceito precisa ser ampliado. A entidade defende que inovação e tecnologia devem caminhar ao lado da preservação da vegetação existente, e não substituí-la.

“A inovação deve ser complementar à preservação ambiental e não ser usada como compensação. Sustentabilidade também começa pela preservação do que já existe”, afirma a presidente da AMAGÁVEA, Luiza Carneiro.

Pode um empreendimento ser considerado sustentável quando ainda existe uma discussão jurídica sobre a preservação da vegetação da área?

A AMAGÁVEA questiona uma compreensão de sustentabilidade centrada apenas nas características do empreendimento, sem considerar a preservação do patrimônio ambiental existente. Para a associação, um empreendimento verdadeiramente sustentável não pode estar associado à alta supressão de árvores, à redução da cobertura vegetal e aos impactos sobre o patrimônio ambiental.

Preservar compensa. Mas preservar o quê???

A Gávea como um recorte do debate sobre preservação ambiental no Rio

Em tempos de crise climática, a palavra sustentabilidade tornou-se um ativo poderoso. Ela atrai investidores, valoriza marcas, orienta novos negócios e passou a ocupar lugar central também no mercado imobiliário.

A Gávea, com suas características ambientais singulares, resultado da proximidade com a Mata Atlântica e de uma arborização que molda sua paisagem e seu microclima, é um dos bairros cariocas que mais vivenciam essa discussão.

“Esse é um debate que extrapola completamente a Gávea. É um tema que interessa a qualquer cidade brasileira que esteja conciliando desenvolvimento urbano e preservação ambiental”, conclui Luiza Carneiro.

Cronologia

1943 – O Conselho Florestal Federal condiciona o loteamento da área à preservação das árvores.
1944 – A obrigação passa a integrar formalmente o Termo de Cessão.
2024 – Em agosto, a AMAGÁVEA protocola representação ao Ministério Público questionando critérios do empreendimento Oppy Ubá.
2026 – Em junho, a AMAGÁVEA faz nova representação amplia os questionamentos sobre o licenciamento e pede análise do MP antes de eventuais intervenções.