O RIO EM MARCHA-RÉ AMBIENTAL

O que está acontecendo na Gávea não é um episódio isolado. É um sinal.

Nos últimos meses, moradores de diferentes regiões do Rio de Janeiro passaram a identificar o mesmo padrão: supressão de áreas verdes, avanço de grandes empreendimentos e ausência de estudos de impacto urbano e ambiental compatíveis com a escala das intervenções.

A Gávea, como exemplo, possui uma única via principal de acesso, limites claros de infraestrutura e uma relação histórica com áreas verdes. Ainda assim, numerosos licenciamentos foram concedidos em curto espaço de tempo, resultando no corte de árvores, aumento projetado de moradias e pressão direta sobre trânsito, saneamento e serviços.

QUANDO SE REPETE, NÃO É ISOLADO

Mas o mesmo roteiro se repete em outros pontos da cidade.

Flamengo, Jardim de Alah, áreas do entorno da Lagoa, parques urbanos, Zona Oeste e regiões centrais vêm sendo afetados por decisões fragmentadas, analisadas caso a caso, sem leitura cumulativa dos impactos e sem debate estruturado com as comunidades diretamente atingidas.

Quando bairros diferentes vivem situações semelhantes, o problema deixa de ser local.
Ele passa a ser sistêmico.

Esse cenário ajuda a explicar um dado alarmante: o Rio de Janeiro deveria hoje ter mais de 300 mil árvores a mais se as compensações ambientais exigidas por lei tivessem sido efetivamente cumpridas pelas construtoras. O déficit não é apenas numérico — ele se traduz em mais calor, menos sombra, piora do conforto térmico e queda da qualidade de vida, especialmente para quem vive e circula nas ruas da cidade.

PLANTAR SEM DERRUBAR!

Enquanto o Rio literalmente derrete sob ondas de calor cada vez mais intensas, e a população sofre com a falta de sombra e áreas verdes, a Prefeitura segue autorizando novos empreendimentos com cortes monumentais de árvores.

Ao mesmo tempo, lança programas como o Planta+Rio, que incentiva moradores a solicitarem o plantio de mudas pelo 1746.

Sim, a iniciativa é positiva — e deve ser incentivada. Mas ela revela uma contradição difícil de ignorar: de um lado, o poder público diz que quer plantar e de outro, segue permitindo a supressão de árvores sem limites, sem critérios claros de compensação, sem planejamento territorial e sem priorizar as áreas mais quentes e desassistidas da cidade.

Um programa de solicitação de mudas não substitui uma política estruturada de arborização urbana, orientada por dados climáticos, justiça ambiental e planejamento de longo prazo.

Crescer sem planejamento, transparência e controle ambiental não é progresso.
É transferência de custo para quem mora, circula e trabalha na cidade.

A cidade é um sistema vivo. Quando áreas verdes desaparecem em diferentes bairros, o impacto não fica restrito ao CEP — ele se espalha.

Por isso, o debate que estamos vivendo na Gávea precisa ser entendido como parte de um todo que inclui a cidade inteira. Moradores têm direito à informação, à participação e à defesa do ambiente urbano.

Planejamento não é entrave.
É condição para o futuro.