Uma Carta Aberta Sobre o Sentido da Sustentabilidade
Quando palavras como “sustentabilidade” deixam de representar seus significados originais para legitimar justamente o seu contrário, já não servem aos seus propósitos. Servem apenas ao poder.
Sustentável é a palavra da moda. Quem não é, finge ser com enorme naturalidade. Foi assim com a ecologia anos atrás. Hoje, basta acrescentar “eco” ou “sustentável” ao nome de qualquer empreendimento — Eco Vila, Eco Resort, Parque Sustentável — e pronto: num passe de mágica, a ganância ganha um verniz de responsabilidade ambiental. Você deixa de ser apenas um empreendedor imobiliário e passa a ser um urbanista apaixonado pela natureza.
Outro dia descobri um dado curioso: dependendo do tecido, uma ecobag (sacolas reutilizáveis que foram criadas para resolver o problema do excesso de plástico e microplásticos na natureza) pode demorar mais para desaparecer do planeta do que uma sacola plástica.
O que significa construir de forma sustentável?
É um desvio que se repete. Recentemente, uma edição da revista Veja Rio com o título “Preservar compensa” na capa, exaltando “o concreto da sustentabilidade”, chamou minha atenção. Para minha surpresa, a reportagem apresentava o projeto de um condomínio chamado Opy Ubá, justamente no imenso recorte remanescente de Mata Atlântica que existe atrás da rua onde moro, na Gávea.
Em 2025, fui eleito Carioca do Ano pela mesma Veja. Sou artista visual e imagino que tenha sido escolhido por deixar transparecer em minhas pinturas o amor que sinto pela cidade do Rio de Janeiro e por sua natureza. Fiquei imensamente feliz com esse reconhecimento. Por isso, sinto-me quase na obrigação de defender essa floresta que faz parte das encostas do Parque Nacional da Tijuca. Há questões legislativas que já correm no Ministério Público, mas não entrarei nesse mérito que pertence a outro campo. O que me inquieta é a semântica: o que estamos chamando de sustentabilidade?
Conversando com meus vizinhos, descobri que a AMAGÁVEA (Associação dos Amigos da Gávea) nasceu nos anos 1970 justamente para enfrentar os grandes empreendimentos imobiliários que pretendiam subir a Rua Marquês de São Vicente. Uma de suas fundadoras, Eliane Velloso, já falecida, morava na mesma pequena rua sem saída onde moro hoje. Essa floresta resiste graças às vitórias conquistadas pela associação, pelos moradores, pela mobilização da sociedade civil e pela imprensa. Foi uma escolha da cidade.
A ação dos ecoespeculadores.
Agora, a Gávea está novamente sob ataque. Há um padrão que se repete e que não acontece só aqui, mas ecoa em toda cidade. Enquanto a legalidade é discutida na Justiça, árvores são derrubadas. Depois vêm as ações, os embargos, os recursos. Mas aquilo que levou décadas para crescer já tombou. A linguagem mudou e o marketing ficou sofisticado, mas a lógica continua a mesma.
Os novos ecoespeculadores querem derrubar árvores ignorando o status climático global, a vontade dos cidadãos e driblando a legislação. Prometem compensações ambientais como o plantio de mudas, sabe-se lá onde.
Mas uma muda substitui uma figueira centenária? É aceitável o corte de uma árvore de trinta metros que faz parte da paisagem, da memória da infância de tanta gente, que produz sombra, oxigênio e abriga pássaros? Para quem se interessa apenas pelo espaço que ela ocupa, o argumento é puramente burocrático: “ela não é nativa, veio da Índia ou da África, pode ser derrubada”.
Crescimento a qualquer preço não é sustentável.
Esses construtores, arquitetos e políticos não estão sentindo o calor? Desconhecem as consequências das crises climáticas? Nada disso parece importar diante de um cenário em que a cidade tem que crescer a qualquer preço — um crescimento que não está associado ao bem-estar da população.
Os mais velhos certamente se lembram das passeatas contra o “Monstro da Veplan”, o esqueleto de concreto abandonado em meio à natureza na Gávea. Pois é. O monstro voltou. Só que agora ele se diz sustentável e está escondido sob uma capa verde, desmatando tudo.
Luiz Zerbini
Artista Visual

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